
Laura e Davi eram velhos conhecidos e, tendo amigos e parentes em comum, *amigos-quase-parentes* viraram. De consideração, não de sangue. Lá pelas tantas, já adultos, Davi se viu apaixonado por Laura. Situação delicada. Ela bem que tentou se envolver, mas não conseguiu corresponder ao sentimento dele. Fim do rápido (porém intenso) pseudo-romance. Até que Laura percebeu que o carinho dela por Davi havia crescido, mudado. "Seria amor?", se perguntou. Ela não sabia dizer, e ele nem quis descobrir. Aquela paixão de outrora tinha dado lugar à mágoa e ao orgulho.
Durante muitos anos, o quase relacionamento deles ficou mal-resolvido. Restou em ambos uma sensação estranha: a de que não havia terminado aquilo que poderia ter sido, a de que não tinham colocado um ponto final naquilo que nunca foi. Davi se casou e teve filho com outra(s) moça(s). Separou, casou de novo, mudou de endereço, continuou sua vida. Laura, por sua vez, também seguiu novo(s) rumo(s): investiu na carreira e nos estudos, morou em outra(s) cidade(s), fez centenas de novas amizades, teve namoricos e paixonites. Histórias como outras quaisquer. Dia-a-dia que muito se vê por aí. E foi assim que passou a acontecer aquela velha saia-justa: quando se encontravam em algum evento *familiar*, os dois não conseguiam disfarçar um certo incômodo, o jeito sem-graça como se tratavam. Conversavam normalmente, contavam as novidades, parabenizavam-se pelas conquistas, se diziam felizes com as alegrias do outro... Mas, no fundo da alma, eles se questionavam: "Como teria sido se tivéssemos ficado juntos?" Pergunta sem resposta. Dupla incógnita.
Por ser grande amiga de Laura há muitos anos, eu sei o real significado de Davi na vida dela. Acompanhei alguns momentos bem de perto e, mesmo nas ocasiões em que estive longe, sempre soube que aquele era o grande ponto de interrogação que Laura carregava consigo. Durante quase uma década, era por Davi que ela *fechava os olhos* [como canta Jota Quest]. Era ele que vinha à mente de Laura nas horas de solidão. Davi era a razão dos choros solitários e a personagem principal dos sonhos perturbadores. Sim, ela alimentou esse sentimento praticamente platônico por um bom tempo. Mas superou. Demorou, concordo, mas superou. "Resolvi isso dentro de mim, Nê.", Laura me contou certa vez.
Daí, recentemente, papeamos sobre o ocorrido e ela me confidenciou: "Durante todo esse tempo eu esperei ouvir da boca dele algumas frases que hoje eu sei que nunca escutarei". Foi quando lasquei a pergunta: "Ué, o que você tanto esperou ouvir dele?". E lá veio a bomba: "Uai, resumindo, sempre quis que ele me pedisse para esquecer tudo e sugerisse que tentássemos ficar juntos". Fiquei atônita, juro. Não acreditei, admito. Hã? Como assim? Uma só pergunta veio à minha cabeça naquele momento: "Será que o Davi também não passou todos esses anos esperando o mesmo de você, Lalinha?" Me desculpem, mas merece repeteco: "Será que o Davi também não passou todos esses anos esperando o mesmo de você, Lalinha?" Pois é...
Engraçado (para não dizer trágico) como às vezes deixamos de viver certas coisas por esperar uma iniciativa do outro, né? Deixamos de assumir sentimentos, de pedir perdão e de demonstrar amor porque estipulamos que o primeiro passo não pode ser nosso, sei lá... Deixamos importantes decisões na responsabilidade de outrem. E se a tal pessoa sofrer de falta de iniciativa? E se tal pessoa não se movimentar para fazer o que esperamos que ela faça? Adeus, felicidade. Seremos felizes com o que nos restar, esconderemos essa *pequena* infelicidade no fundo do baú (ou do coração, ou sabe-se lá onde mais).
"Lalinha, provavelmente o Davi achava injusto te fazer um pedido desse! Afinal, era muita coisa para você esquecer e dar outra chance: casamento(s), filho, indefinições... Se você tivesse dito o que sempre quis escutar, mostraria sua vontade de deixar o passado para trás. Assim, ele viraria a página mais facilmente, não acha?" Laura discordou do meu raciocínio e logo encerrou o assunto: "Agora nem vem mais ao caso, já passou. Pronto".
É claro que tudo e todos têm limites. É preciso ter timing até mesmo (ou principalmente) em assuntos do coração. Mas deixar de viver algo por causa das *não-atitudes* alheias não dá, né? E se o outro for covarde e nunca se arriscar, héim? Nossa vontade de correr riscos deve ser abafada? Quem define isso? Enfim... Eu, que (sobre)vivi (a) história(s) mal-resolvida(s), passei a evitar esse tipo de situação. Para mim, tudo deve ser conversado. Por mim, a verdade sempre deve prevalecer. Não aguento viver mentiras e/ou ilusões. Ou é ou não é. Dá para ser simples assim? Geralmente sim! Pena que outras pessoas não agem dessa forma, né? Ou melhor, preferem nem agir: "O tempo decidirá por nós"... Hã? Como assim?
Só vos digo uma coisa: no que depender da Vanessa que aqui/agora escreve, o ponto de interrogação que ainda habita em mim mudará de endereço (ou de status) assim que 2011 chegar. Por vontade própria ou por ordem de despejo.